A vida sorriu-me quando tu apareceste. Fui pondo o cabelo atrás da orelha, enrolando as pernas como faço quando estou nervosa e desviando o olhar para não corar. Tu olhavas para mim com a curiosidade de querer saber mais. Querias ler mais do que aquilo que dizia a capa do livro. Acabei por te deixar abrir o livro, acabei por te ensinar a folhear todas as folhas do meu ser e ensinei-te a ler nas entrelinhas da minha teimosia e persistência. Não foi fácil, tal e qual como uma pequena criança na primária, fomos juntando as sílabas e formando palavras, fomos descobrindo os nossos traços, as nossas manias, as nossas artimanhas. Foste capturando sorrisos fugazes e registando admirações. Fomos aos poucos ficando mais uns minutos, mais umas horas, mais uns dias à beira rio até trocarmos o primeiro beijo, tão leve e doce, tão repentino e breve.
O livro que outrora desfolhaste passou a ser escrito não só por mim, mas também por ti. Passaste a ser protagonista desta história que construímos diariamente há tantos dias que já não cabem nos nossos dedos das mãos - mãos essas que se entrelaçam e amarram em momentos só nossos, prometendo assim não se largar ou soltar por mais duros que sejam os dias. Cuidas de mim como só tu sabes, por entre palavras sussurradas ao ouvido, com aqueles abraços contra o vento forte ou os dedos que dissipam as lágrimas quando estas me escorrem pela cara. Cuidas de mim mesmo nas coisas mais rotineiras, cuidas de mim como eu cuido de ti, dando-te tudo de mim.

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